Trivela

África

Quartas de final da Copa do Mundo. Jogo empatado por 1 a 1 e, no último minuto do segundo tempo da prorrogação, o seu time tem uma falta perigosa, para levantar a bola na área. Na primeira tentativa, chute salvo em cima da linha. Mas a bola sobra limpa para você cabecear, na pequena área, com o goleiro já batido. Os deuses do futebol querem fazer de você um imortal?

Não. Eles apenas te usaram. Você não passa de coadjuvante em um dos momentos mais épicos da história dos Mundiais. Quem se eternizará como grande herói, na verdade, é Luis Suárez, por arriscar tudo na hora exata. A bola espalmada evitou o gol certo e transformou o choro pela expulsão em alegria, depois do pênalti que explodiu no travessão. Em um roteiro que pareceria surreal demais para Hollywood, o Uruguai avançou para as semifinais do Mundial de 2010, enterrando Gana com a cavadinha de Loco Abreu.

A infelicidade dos ganeses sempre é lembrada pelo pênalti desperdiçado por Asamoah Gyan. Mas o atacante, de certa forma, conseguiu superar o trauma. Voltou à Copa do Mundo de 2014 para se tornar o maior artilheiro africano da história do torneio. Entretanto, ninguém incorporou mais a desgraça do que Dominic Adiyiah. Quem? Sim, aquele cara que cabeceou à queima-roupa. Que poderia se consagrar com o gol que classificou a primeira seleção da África a uma semifinal de Mundial. Um tento no último minuto da prorrogação em uma Copa. Mas que, no entanto, viu a sua carreira cair em um abismo a partir daquele momento.

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Um ano antes, Adiyiah havia feito história em uma Copa do Mundo, mas a sub-20. O garoto liderou a seleção de Gana rumo ao título, vencendo o Brasil de Ganso e Giuliano na final. Ganhou a Bola de Ouro de melhor jogador e a Chuteira de Ouro como artilheiro, autor de oito gols em seis partidas. Só não balançou as redes (no jogo ou na disputa por pênaltis) uma vez: justamente no empate por 2 a 2 contra o Uruguai, pela fase de grupos.

As grandes atuações no Mundial Sub-20 levaram Adiyiah à seleção principal de Gana, convocado pela primeira vez apenas um mês depois do título. Também garantiram a transferência do atacante (então no Fredrikstad, da Noruega) rumo ao Milan. Mesmo sem ser utilizado no clube italiano, disputou a Copa Africana de Nações de 2010. E agradou a ponto de seguir no time para o Mundial da África do Sul, convocado ao lado de outros quatro companheiros de sub-20, entre eles André Ayew.

Adiyiah permaneceu como reserva na Copa do Mundo. Entrou no segundo tempo da derrota para a Alemanha. E teve nova chance diante do Uruguai, substituindo Sulley Muntari aos 44 do segundo tempo. A grande oportunidade, até ser barrado pelas mãos de Suárez. Depois do lance, desespero de Adiyiah se materializou em seu rosto. Um pesadelo, que certamente o atrapalhou na disputa por pênaltis. Muslera defendeu a sua cobrança, a última antes de Loco Abreu confirmar a eliminação dos ganeses.

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Talvez para incentivar o garoto de 20 anos, a federação de Gana o premiou como o melhor jogador do país em 2010. Apenas uma consolação, que não evitou a decadência. A partir daquele jogo, Adiyiah entrou em campo apenas mais sete vezes com a camisa da seleção, a maioria em amistosos. Desde 2012, não é mais convocado. Também porque o atacante não conseguiu vingar em seus clubes.

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Sem ganhar sequer uma chance no time principal do Milan, Adiyiah rodou em empréstimos. Passou por Reggina, Partizan Belgrado, Karsiyaka e Arsenal Kiev. Disputou apenas 36 jogos em dois anos, marcando míseros dois gols. Mesmo assim, os ucranianos resolveram lhe tirar do Milan e o contratar em definitivo. A paciência, porém, durou pouco. Sem a produtividade que se esperava, acabou emprestado ao Atyrau, do Cazaquistão. Nem lá ele brilhou.

Desvinculado do Arsenal Kiev, Adiyiah tenta um novo começo em 2015. Aos 25 anos, chegou ao Nakhon Ratchasima, clube que voltou à primeira divisão do Campeonato Tailandês após sete temporadas longe da elite. Em quatro jogos pelo novo clube, ainda não fez gols. No último jogo, começou no banco de reservas.

Deve ser frustrante para Adiyiah ver Luis Suárez brilhando no Barcelona. Obviamente, aquele gol não faria do ganês melhor que o uruguaio. O lance serviu para aumentar a notoriedade de Luisito, que já arrebentava no Ajax, e fazia uma excelente Copa do Mundo até então. Todavia, a bola que não entrou negou o reconhecimento de Adiyiah. A carreira do jovem poderia ser completamente diferente. Que não defendesse hoje um clube de ponta, poderia se escorar naquele feito de cinco anos atrás para seguir na seleção ou passar por equipes melhores. Mas viveu com o fantasma na cabeça e não aproveitou mais nenhuma chance que teve. O herói de Copa que nunca foi e, provavelmente, nunca será.

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