Trivela

Copa do Mundo

Podem dizer que a Bola de Ouro cometeu uma injustiça ao nunca condecorar Andrés Iniesta. A própria France Football reconheceu o seu pesar por isso. Mas como dar importância a um prêmio votado por reles humanos, quando o universo conspirou a favor do rapaz nascido em Fuentealbilla? O destino por vezes é cruel, mas também se torna clarividente em finais de Copa do Mundo. Foi assim com Pelé em 1958, foi assim com Zidane em 1998. Nem sempre dá certo, é verdade. Mas ele não poderia ter sido mais justo naquele 11 de julho de 2010. Concedeu a bola decisiva ao camisa 6. Um chute seco, as redes estufadas, os braços vibrantes, o tributo na camisa, o grito de gol. Hoje, oito anos depois, tudo parece fazer sentido. O tento de Iniesta na final do Mundial da África do Sul vale muito mais do que qualquer brilho dos troféus individuais. É verdadeiramente eterno. É o destino manifesto de uma lenda.

Quando Iniesta entrou em campo no Soccer City, obviamente, já era um craque renomado. Havia sido decisivo em jogo grande de Liga dos Campeões, se via aclamado como astro do Barcelona, honrou-se como campeão europeu com a Espanha, já tinha ficado entre os primeiros da Bola de Ouro. Ainda assim, sempre aparecia uma menção anterior a Ronaldinho ou a Messi. Sempre aparecia uma aglutinação com Xavi. O brilho próprio do maestro se compartilhava, e ele acabava não sendo devidamente valorizado pelo que fazia. Até que os deuses do futebol fossem oniscientes na decisão da Copa de 2010.

O sucesso da Espanha esteve por um fio naquele jogo tenso, principalmente quando Arjen Robben saiu de frente para o gol, mas terminou barrado por Iker Casillas. A batalha se alongava e os 90 minutos não foram suficientes, adentrando na prorrogação. Os pênaltis pareciam mesmo inescapáveis, até que o clímax acontecesse. Já no segundo tempo da prorrogação, a quatro minutos do apito final, o gol. A providência divina do futebol.

A jogada começa ainda no campo de defesa, em um contra-ataque. Jesús Navas arranca e abre um rombo na defesa da Holanda. É desarmado. A bola sobra com Iniesta, que domina e já indica algo diferente, com um toque de calcanhar. Cesc Fàbregas recebe e erra o passe, mas Navas recupera e aciona Fernando Torres. O cruzamento para Iniesta também não é bom, mas Fàbregas retoma a posse. E esta imperfeição era apenas um artifício do destino para deixar o maestro ali, livre dentro da área, em condições apropriadas, pronto para resolver. Iniesta ajeita de canhota. De frente para o gol, não perdoa, com um sem-pulo lindo. A consagração. O título mundial à Espanha. A homenagem ao amigo Dani Jarque.

Há exatos oito anos, Iniesta passou a ser aplaudido em praticamente todos os estádios da Espanha. Uma gratidão pelo título inédito que concedeu ao país, mas que, com o tempo, ganhou outras conotações. Don Andrés conquistou a Euro 2012 jogando ainda mais, sublime mesmo sem balançar as redes. Distribuiu encanto a diversas partes do mundo, através de seus dribles, de seus passes, de sua classe. Dedicou-se com o máximo empenho às camisas que vestiu, degustando cada vitória, sentindo cada derrota. Nunca deu motivos para diminuírem seu nome, um senhor em caráter e humildade. As palmas são para reverenciar não só o herói nacional, mas também o gênio do futebol e o grande homem. Descolado de clubismos ou nacionalismos, longe da sombra de companheiros ou das rixas com adversários, imune às polêmicas vazias. Único, e brilhante, como aquele tento.

Em 11 de julho de 2010, quase ninguém tinha a real dimensão do que Iniesta significava. Em 11 de julho de 2018, dias após sua despedida da Espanha e do Barcelona, o gol no Soccer City ainda é o ápice, mas com dimensões imensamente expandidas. O marco de uma trajetória que se agigantou muito mais depois daquela noite. A Copa do Mundo antevia. Ela sabia por que aquele rapaz de 26 anos foi o escolhido. Agradecemos por isso.

1966: Inglaterra 0x0 Uruguai

Fase de grupos
Wembley, em Londres

1982: Itália 3×1 Alemanha Ocidental

Final
Santiago Bernabéu, em Madri
Gols: Paolo Rossi, Tardelli, Altobelli | Breitner

1998: Croácia 2×1 Holanda

Decisão do terceiro lugar
Parc des Princes, em Paris
Gols: Prosinecki, Suker | Zenden

2010: Espanha 1×0 Holanda

Final
Soccer City, em Joanesburgo
Gol: Iniesta

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