Trivela

Liga Europa

A chance estava posta logo nos primeiros instantes da final em Lyon. Uma bela trama coletiva do Olympique de Marseille chegou aos pés de Dimitri Payet. E o camisa 10 do time, um dos melhores garçons da Europa, fez aquilo que se espera de alguém com seu talento: colocou Valère Germain de cara para o gol. Mas quando os celestes poderiam surpreender, sair em vantagem contra o Atlético de Madrid, o centroavante perdoou. Uma oportunidade que, no fim das contas, não apareceria outra vez aos marselheses, por mais que o time jogasse de igual com os colchoneros durante parte do primeiro tempo. Já aos 30 minutos, a esperança se esvaiu de vez. Payet se lesionou e tirou as forças dos franceses na sequência da partida. As lágrimas foram uma constante, a partir de então.

Payet é um jogador de atitudes questionáveis. A maneira como forçou a saída do West Ham, em litígio com o clube, manchou um bocado a sua imagem. Mas isso não pode diminuir o seu lado humano. Um lado que esteve bastante exposto durante a decisão da Liga Europa. Bastou sentir a lesão e recobrar os problemas físicos que vinham limitando suas atuações nos últimos tempos que, ao perceber a gravidade de seu problema, o meia desabou em lágrimas. Saiu abatido, como quem gostaria de disputar aquela final mais do que tudo. Recebeu o carinho de diversos companheiros, e até mesmo do “adversário” Antoine Griezmann, que deram um abraço de consolo.

O Olympique de Marseille representa muito a Payet. Pelo clube, o camisa 10 viveu a sua verdadeira afirmação na Ligue 1, entre 2013 e 2015, que o manteve entre os melhores jogadores do país. Um tanto quanto a contragosto, no saldão feito pela diretoria celeste, saiu para o West Ham. Brilhou na Premier League e forçou sua venda. No entanto, mesmo que tivesse mercado em clubes maiores da própria Inglaterra, pediu para voltar à Provença. Desejava de novo a adoração oferecida a cada erupção no Vélodrome. E mostrou que seguia em grande forma, principalmente nesta temporada. O meia arrebentou em várias partidas, seja com seus passes decisivos ou com os seus chutaços de fora da área. A campanha até a final da Liga Europa dependeu diretamente do protagonista do time, com três gols e sete assistências – todos registrados nos oito jogos anteriores dos mata-matas.

Payet poderia ter tentado chutar no lance em que deu o passe a Germain? Difícil dizer, quando o seu caminho estava bastante congestionado e a enfiada de bola foi tão precisa. Mas é fato que o Olympique sentiu demais a sua perda. O time, que havia tomado o primeiro gol pouco antes da contusão, numa bobeira da zaga, se apagou depois da substituição, e continuou sem reação no segundo tempo, quando Antoine Griezmann balançou as redes pela segunda vez. Dos 24 aos 65 minutos de jogo, os marselheses não finalizaram uma mísera vez. E quando se aproximaram da meta de Jan Oblak para pelo menos diminuir, não foram precisos o suficiente. Engoliram a seco ainda o terceiro tento, de Gabi, que decretou a decepção.

Payet, ao apito final, já havia enxugado as lágrimas. Passou ele a consolar alguns companheiros, em especial o próprio Germain, que chorava copiosamente. Entretanto, quando subiu ao pódio para receber a medalha de prata, de novo, o camisa 10 não se conteve. Era uma derrota categórica contra o favorito na partida. Independentemente disso, não deixava de ser o sonho que se rompia. A chance de uma carreira, que, aos 31 anos, sabe-se lá quando vai acontecer novamente.

E as lágrimas do Payet talvez não se limitem apenas ao hoje. A França aguarda a convocação à Copa do Mundo e o meia está entre os nomes que não estão totalmente certos. Didier Deschamps indicou que esperaria a final da Liga Europa para definir os chamados, e uma atuação estrondosa do camisa 10 certamente o ajudaria. Agora, ele tem dúvidas se há tempo hábil para se recuperar dos problemas físicos. Embora tenha disputado a Euro 2016, um dos principais jogadores na campanha francesa até a decisão, o camisa 10 ainda busca o seu primeiro Mundial.

A face de Payet se transforma na face de cada marselhês. Aqueles que se mobilizaram com a grande campanha do time, que se entregaram rumo à final, que desejaram aquela taça. Que, realmente, depositaram boa parte de suas esperanças na categoria do camisa 10, nem que fosse para resolver em uma bola parada qualquer. Pois a dor do ídolo acaba sendo uma dor que todos os torcedores experimentam: o amargor de uma decisão que todos ansiavam, mas os celestes mal puderam jogar, dominados pelo Atleti.

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