Trivela

Itália

Entre tantas cenas simbólicas ocorridas no Suécia x Itália da repescagem para a Copa do Mundo de 2018, duas expressam bastante a agonia dos italianos diante da classificação que escapava por seus dedos. Na partida de ida, Giorgio Chiellini incorporou o espírito de todo um país, inquieto com a impotência vista em Solna. Mandou-se ao ataque e parecia disposto a brigar por cada bola, entrar em cada dividida. Esboço de heroísmo em vão, que não evitou a derrota por 1 a 0 para os suecos. Já no reencontro em Milão, o vídeo que roda o mundo é de Daniele de Rossi, possesso no banco de reservas. O volante de 34 anos foi chamado a aquecer, quando estava claro que os azzurri não precisavam dele. Estourou com um dos assistentes de Gian Piero Ventura, apontando para Lorenzo Insigne, este sim necessário em campo. O talento que sequer tirou o agasalho durante o naufrágio.

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Se as lágrimas de Gianluigi Buffon tocam bastante, a emoção de Chiellini, De Rossi e Barzagli também possui enorme valor. Afinal, são outros três decanos que se despedem da seleção nacional. Outros três emblemas azzurri, dois deles tetracampeões mundiais, enquanto Chiellini não é menor por sua ausência na Alemanha em 2006. Passaram por momentos difíceis, é verdade. Atravessaram duros revezes ao longo de suas trajetórias na Copa do Mundo, embora também (não devemos nos esquecer) tenham levado o país ao vice-campeonato da Euro 2012. Tanta história para acabar assim, num rompante. No gosto amargo de um jogo no qual a incompetência custou caro demais. E que vê tantos ídolos com olhos marejados, encerrando suas trajetórias com a Nazionale naquela que pode ser considerada a sua grande vergonha.

Abaixo de Buffon, De Rossi é quem certamente integrará o panteão de gigantes da Azzurra. O romanista se despede da Itália como o quarto jogador com mais partidas pela seleção – além de Gigi, atrás apenas de Fabio Cannavaro e Paolo Maldini. Não é pouco. Nenhum meio-campista possui mais aparições com a camisa azul do que ele, superando Andrea Pirlo justamente nesta repescagem. E com o gosto de ter ajudado a colocar a quarta estrela no peito logo no início da caminhada. A participação do volante na Copa de 2006 será marcada por sua suspensão, que o rotulou como jogador violento por anos – e de maneira um tanto quanto injusta, considerando o seu talento. Mas não dá para esquecer também o peso da responsabilidade que ele carregou na decisão contra a França, jogando por 60 minutos e convertendo um dos pênaltis. Não dá para esquecer as grandes competições que disputou, especialmente pelo alto nível na Euro 2012, eleito para o time ideal do torneio. E nem ignorar cada uma de suas 117 atuações, com direito a 21 gols anotados.

“É um momento sombrio para o nosso futebol, muito obscuro para aqueles que fizeram parte desta era de dois anos. Haverá tempo para avaliar tudo, mas a única coisa que posso dizer agora, algo banal, é que devemos construir em cima do espírito que os rapazes demonstraram hoje e do desejo de fazer parte desta jornada. Nós começaremos de novo, como fizemos depois de outros momentos desesperadamente decepcionantes”, afirmou De Rossi. “Eu andei vagando por Coverciano e por todo o mundo com esta camisa durante mais de uma década, então vesti-la pela última vez é um sentimento estranho”.

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Parte das seleções de base desde o sub-15, Chiellini foi companheiro de De Rossi a partir do sub-19 e estreou pela equipe principal também em 2004, mas acabou de fora da lista final para a Copa do Mundo de 2006. O que construiria depois, de qualquer maneira, ficará. É o oitavo com mais partidas pela Nazionale, 96 ao todo. Esteve em todos os grandes torneios possíveis desde então. Encarnou o orgulho e a alma dos italianos, tão identificado com os torcedores por não desistir jamais. Vestiu a braçadeira de capitão na ausência de Buffon. Caiu algumas vezes, mas se levantou. Depois da eliminação para a Suécia, contudo, foi um dos primeiros a escancarar o seu choro. A dor também pelo ponto final que ninguém gostaria que acontecesse desta forma.

“Não sou daqueles que reclamam da sorte ou do árbitro, por isso cumprimento os suecos. Demos tudo o que podíamos, mas, evidentemente, neste momento não foi suficiente e a Suécia mereceu mais do que nós. Devemos nos reerguer a partir do amor demonstrado por Milão e por todo o país. Estamos orgulhosos de todos ao nosso redor e, portanto, ainda mais desapontados pela queda. Temos muitos jovens que nos próximos anos precisarão do mesmo amor e apoio. É um longo caminho depois de uma eliminação como essa, há muito trabalho a se fazer. Ao longo dos últimos três anos, pedimos para que esse amor nunca deixasse a Nazionale. Estou certo que, se algo pode ser construído depois do que aconteceu hoje, esta será a hora zero. Claramente é uma mudança radical. O futebol pertence a todos e nós queremos criar uma nova era”, disse Chiellini, também confirmando a despedida.

Barzagli, por sua vez, não foi tão constante quanto os companheiros nas convocações, iniciando sua trajetória também em 2004. Reserva na Copa do Mundo de 2006, disputou duas partidas durante o tetracampeonato. E apesar de um hiato durante sua passagem pelo Wolfsburg, ausente no Mundial de 2010, voltaria depois de sua transferência à Juventus. Para oferecer a solidez defensiva ao lado de outros pilares. Nem sempre suficiente, é verdade, como os resultados recentes acabam demonstrando. Mas representativo, a ponto de retornar à Nazionale mesmo depois de esboçar o adeus após a Euro 2016. Foram 76 partidas, as duas últimas ante a Suécia, aos 36 anos.

“É a pior maneira de sair. É uma decepção enorme para mim, para o futebol e para as pessoas. A seleção une a todos, torcedores ou não, de qualquer clube. E a tristeza é grande não apenas pela ausência da Copa, mas porque desapontamos todos os que nos acompanharam hoje, no estádio ou diante da televisão. É difícil falar sobre aspectos técnicos neste momento, mas a eliminação significa que há algo de errado. Esta noite foi um duro golpe ao futebol italiano, mas o movimento continuará”, definiu Barzagli.

Ao lado de Buffon, quatro vozes imponentes do futebol italiano. Quatro jogadores que serão sempre lembrados pelos serviços prestados à equipe nacional. E cujas lágrimas dignificam ao menos um pouco o fracasso ocorrido em Milão. Seus gritos em campo foram o som que motivou os azzurri por anos. Despediram-se em meio à fúria por aquilo que desabava sem que pudessem mudar a história com suas próprias pernas. Ao final, ficam os lamentos que demorarão a passar, no último resquício de honra e grandeza que poderiam desfrutar.

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