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Europa

Há uma forma tradicional, linear, de contar a carreira do dinamarquês Preben Elkjaer Larsen. Atacante de muita força e raça, começou a carreira no Vonlose, pequeno clube de seu país, passou pelo Colônia – onde brigou com o técnico -, foi para a Bélgica para defender o Lokeren e parecia caminhar para uma trajetória anônima quando estourou pela seleção da Dinamarca e pelo Verona na metade da década de 1980. Foi uma figura carismática nestas duas equipes antes de ir ao Vejle para encerrar a carreira aos 33 anos.

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Convenhamos, parece a biografia de uma batalhão de atacantes por aí: não atuou por nenhum grande clube, não bateu recordes e se eternizou com ídolo das carentes torcidas de um clube pequeno-médio e da seleção de um país que ainda não tinha tradição internacional. Poderia ser a história do bósnio Ibisevic. Ou a do norueguês Tore André Flo. Talvez do hondurenho Maynor Figueroa. Todos bons jogadores, que mereceram respeito em seus melhores momentos, mas que estão longe de terem representatividade histórica global.

Mas, de alguma forma, Elkjaer teve isso. E não dá para explicar isso por argumentos frios e concretos. Era uma questão de fantasia, de imaginação.

O dinamarquês não era grosso. Ele tinha habilidade, mas é inegável que suas principais virtudes eram o porte físico e a boa capacidade de se movimentar (não era um centroavante grandalhão que fica parado na área) para criar espaço aos companheiros. Fora de campo, seu comportamento rebelde não fazia dele o melhor amigo dos técnicos. Tanto que perdeu espaço no Colônia depois que foi perguntado por Hennes Weisweiler se eram verdadeiros os boatos de que teria passado a noite com uma garota e muito uísque. “Não é verdade, eram duas garotas e vodca”, respondeu. Fez apenas nove partidas e um gol em uma temporada e meia pelo clube alemão e foi vendido ao Lokeren.

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Na Bélgica teve bons números (98 gols em 190 jogos pela liga) e ajudou o pequeno time a conquistar um vice-campeonato nacional e a disputar competições europeias. Ainda assim, ainda era visto como um fenômeno local.

Sua projeção internacional veio apenas em 1984, já com 27 anos, quando a Dinamarca chegou à semifinal da Eurocopa e foi comprado pelo Verona. Foram apenas quatro temporadas no auge. Nesse tempo, marcou dois gols em Eurocopa, quatro em Copas do Mundo (incluindo uma tripleta contra o Uruguai) e 48 no Verona. Não são números de cair o queixo. Mesmo no seu clube, jamais fez mais de nove gols em uma temporada da Serie A.

Mas é preciso ler as entrelinhas.

A Dinamarca de Sepp Piontek surpreendeu o mundo com um futebol ofensivo e corajoso, passando por adversários mais tradicionais (Bélgica e Iugoslávia na Euro-84, Escócia, Uruguai e Alemanha Ocidental na Copa-86). O Verona conquistou a Serie A 1984/85, temporada em que o título supostamente seria disputado entre a Juventus de Platini, a Internazionale de Rummenigge, a Fiorentina de Sócrates, a Roma de Falcão, o Napoli de Maradona, o Torino de Junior e, talvez, a Udinese de Zico. No duelo que marcou a posição veronesa como grande força daquele campeonato, o dinamarquês fez um gol descalço na vitória sobre a Juventus por 2 a 0.

Eram duas histórias de fantasia. O país que surgia do nada e revirava o futebol internacional e o clube voluntarioso que superava gigantes para conquistar a liga nacional mais rica do planeta. Elkjaer era a figura que unia os dois enredos, jogando um futebol de força, mas que merecia crédito por sempre ajudar companheiros de mais talento (Michael Laudrup na Dinamáquina, Fanna e Galderisi no Verona) brilharem.

Não havia como não reconhecer o valor simbólico do atacante. Isso não veio com números ou troféus, mas com reconhecimento individual. Em 1984, Elkjaer foi o segundo colocado no prêmio da Bola de Ouro da France Football, perdendo apenas para Platini. No ano seguinte, foi o terceiro colocado, ficando atrás de Platini e Tigana. Em 1986, foi eleito pela Fifa o terceiro melhor jogador da Copa do México, superado apenas pelo argentino Maradona e o goleiro alemão Harald Schumacher. E aí dá para se perceber a diferença de influência do dinamarquês para os exemplos modernos como Ibisevic, Tore Flo ou Maynor Figueroa.

Até hoje, Elkjaer é ídolo em Verona. Lá, recebeu o apelido de ““Il Sindaco” (O Prefeito) e suas visitas à cidade sempre são noticiadas pela imprensa local. Na Dinamarca, onde ainda é visto como um dos grandes nomes do esporte do país, tentou a carreira de técnico, sem sucesso, e esporadicamente trabalha como comentarista de TV.

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