Trivela

Europa

Esse é daqueles gols que, se você assistiu ao vivo, muito provavelmente se lembra de onde estava no momento exato. Se sua memória é boa, se lembra até mesmo do que pensou e de como reagiu – com espanto, é claro. “Como esse cara conseguiu fazer isso?”. Afinal, não é sempre que se vê um gol de bicicleta, da intermediária, encobrindo o goleiro e dois defensores. Existem outras acrobacias tão ou mais bonitas? Pode ser. Mas não em um amistoso com tanto calibre. Não na inauguração da arena construída sobre o solo sagrado do Estádio Rasunda. Não protagonizada por um personagem como Zlatan Ibrahimovic, capaz de marcar tantos golaços. E entre tantos golaços, este talvez se eternizará como o mais lembrado de toda a sua carreira. O golpe de Taekwondo que se transformou em obra de arte.

A inauguração da Friends Arena já estava sendo bastante movimentada. Suécia e Inglaterra faziam uma partida aberta, com cinco gols e duas viradas até então. Ibra abriu o placar. Danny Welbeck e Steven Caulker tomaram a vantagem para os Three Lions. Já na etapa complementar, o camisa 10 sueco já tinha completado sua tripleta, naquela que parecia uma vitória consumada. Mas ainda havia tempo para o show. Havia espaço para as peripécias. E havia Zlatan, no lugar certo e na hora certa para anotar o gol antológico.

Quando o relógio já marcava os 90, Joe Hart saiu fora da área. Afastou a bola de cabeça, no que parecia a decisão correta para evitar o perigo. Na verdade, apenas ajeitou a redonda para Ibrahimovic preparar a sua arte. Um gol desses depende de várias virtudes. De intuição, de velocidade de raciocínio, de noção de posicionamento, de força, de impulsão, de precisão no chute, de técnica na acrobacia. Mas nada disso se compara à coragem de emendar uma bicicleta de tão longe, sem sequer deixar a bola cair. Zlatan viu o projétil que caía, soltou o corpo no ar e emendou o balaço. Flutuou. E ainda parecia flutuando enquanto olhava a bola seguindo na direção certeira. Teve tempo de cair, de se levantar. De, já em pé, assistir ao esforço em vão de Ryan Shawcross. A pelota quicou no gramado, dentro do gol, antes de estufar as redes com violência.

A reação de Ibra dimensiona bem a certeza de quem sabe o que aprontou. De quem sabe o tamanho do momento que acabou de viver. Abriu os braços e fez uma cara de “sou foda”. Mas o êxtase não caberia no peito nem mesmo do camisa 10 tão frio. Arrancou a camisa, saiu correndo com a alegria expressa no rosto, socou o ar. Era abraçado por todos os seus companheiros. Era aplaudido de pé por seus compatriotas. A bola ele levaria para casa de qualquer jeito, pelos quatro tentos na vitória por 4 a 2. Ela merecia um pedestal em sua casa, por ser tão obediente. Por terminar de proporcionar a jogada mágica.

Após a partida, Zlatan fez uma graça diante dos microfones, como de costume. “Eu vi a bola vindo e tive que decidir se eu deveria disputar ela no alto com Hart ou esperar ele cabecear. Quando ele cabeceou, a ideia de tentar marcar daquele lugar surgiu na minha mente. Eu acertei o chute no meio do ar e, quando eu caí, vi o zagueiro correndo para tentar afastá-la, mas o chute o encobriu. Foi uma boa tentativa, isso é tudo. Parece fantástico, mas eu preferi o primeiro gol, porque foi história: o primeiro gol na nova arena”, declarou, logo depois do jogo. Mas hoje em dia a gente possui uma noção bem maior da história. Poucos se lembram daquele gol aos 19 minutos, definido com a parte externa do pé. Mas ninguém se esquece da bicicleta.

Curioso que o gol fascinante de Ibrahimovic complete cinco anos justamente em um dia tão festivo ao futebol sueco. A volta à Copa do Mundo, que o craque não conseguiu disputar em 2010 ou 2014. E se o nome de Zlatan circula nos principais jornais suecos nesta terça, é mais pela especulação de que ele possa voltar à equipe nacional do que pela efeméride do golaço. O veterano já negou o rumor na última semana, enquanto o técnico Janne Andersson até se irritou com a pergunta insistente na coletiva de imprensa após a classificação. O camisa 10 é o maior artilheiro da Suécia e um símbolo de sua era, embora seus resultados liderando o time sejam bastante tímidos no geral. Entretanto, a impressão que impera é a superioridade técnica do extraclasse. A magia que Ibra pode agregar ao Mundial. Os lances impressionantes, como aquela acrobacia de cinco anos atrás.

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