Trivela

Brasil

As conquistas do Brasil na Copa do Mundo costumam ter as suas cartas marcadas. Aqueles jogadores simbólicos, quase sempre lembrados por suas atuações na competição. O tetra, sobretudo, parece ser ainda mais preso a estas figurinhas carimbas. Romário, Bebeto, Dunga, Taffarel… E nem sempre se exalta uma peça essencial para que o sistema de Carlos Alberto Parreira desse certo. O vértice daquela seleção, e que jogou muito nos Estados Unidos: Mauro Silva. O camisa 5 era o esteio do time que superou os seus limites em 1994. Dominava a faixa central do campo com simplicidade e presença física. Fazia seu serviço eficientemente e oferecia enorme proteção, excelente nos desarmes e no posicionamento. Um dos melhores em sua função a vestir a camisa amarela, e que precisou de apenas uma mísera Copa no currículo para se consagrar. Grande nome que completa 50 anos nesta sexta.

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A dimensão da carreira bem-sucedida de Mauro Silva começa pelos seus primórdios no Brasil. O volante nunca jogou num dos “grandes clubes” do país. Ainda assim, viveu grandes momentos. Revelado pelo Guarani, foi vice-campeão paulista em 1988, mas sofreu com as lesões no Brinco de Ouro. Desta maneira, ganhou o “rótulo” de bichado e acabou enviado em uma barca ao Bragantino, um clube de pretensões grandes, mas que naquele momento não representava muito. E a ascensão surpreendente do Massa Bruta contou com a qualidade de seu camisa 5.

Comandado por Vanderlei Luxemburgo, Mauro Silva foi um dos protagonistas do Bragantino campeão paulista em 1990, derrotando o Novorizontino na famosa “final caipira” do estadual. No ano seguinte, passaria a trabalhar com Carlos Alberto Parreira no clube. Não bateu o São Paulo de Telê Santana na decisão do Brasileirão, mas o nível apresentado pelo meio-campista foi tão bom que ele levou a Bola de Ouro da Revista Placar. No ano seguinte, em outra boa campanha do Braga que quase rendeu a final, foi de novo Bola de Prata.

Nesta passagem por Bragança Paulista, era impossível ignorar Mauro Silva nas convocações à seleção brasileira. E suas primeiras chances vieram no início de 1991, no momento em que Paulo Roberto Falcão empreendia seu processo de renovação na equipe nacional. O volante se tornou um dos intocáveis nas listas do treinador. Moral que não perderia com a saída do ídolo colorado, substituído justamente por Parreira. A confiança seria a deixa para que ele se tornasse o dono da camisa 5 do Brasil.

Estava claro que o Estádio Marcelo Stefani era pequeno demais à eficiência de Mauro Silva. E, por mais que fosse um jogador pronto a tomar conta do meio-campo em qualquer clube de ponta no Brasil, seu destino foi a Europa. O Deportivo de La Coruña começava um projeto ambicioso e confiou no jovem volante, então com 24 anos, para ser uma das referências nesta nova fase. O camisa 6 desembarcou no Riazor em 1992/93, uma temporada depois do retorno dos branquiazuis à primeira divisão de La Liga, após um hiato de quase duas décadas. Era o grande reforço do elenco, que começava a se pintar de verde e amarelo também tirando Bebeto do Vasco.

O Deportivo tomou impulso já a partir daquele ano. Do 17° lugar na temporada anterior, conseguiu terminar o Campeonato Espanhol em terceiro, se classificando à Copa da Uefa. Mas nada se compararia à montanha-russa de emoções vividas em 1993/94. O Depor ganhou ainda mais força, não apenas com a consolidação dos que já estavam no elenco, mas também pela chegada de outros reforços pontuais, como Donato. Mauro Silva ajudou a formar a melhor defesa da história de La Liga, capaz de sofrer apenas 18 gols em 38 rodadas. Quando tudo parecia pronto para os galegos encerrarem a hegemonia do Barcelona, no entanto, veio o malfadado tropeço na última rodada, em que o pênalti desperdiçado por Miroslav Djukic no minuto final entregou o tetra aos blaugranas.

Eleito para a seleção do campeonato, Mauro Silva teve a chance de erguer a cabeça na Copa do Mundo de 1994. Parreira priorizou um sistema mais defensivo, com o camisa 5 escalado ao lado de Dunga. Se não era a dupla de volantes mais deslumbrante que o Brasil já teve, certamente esteve entre as mais sanguíneas. O trabalho de ambos era excepcional para limpar os trilhos e garantir as bases do jogo da Seleção. Permitiam as subidas dos laterais, garantiam a segurança e mantiveram o time firme no caminho das vitórias. Aquela equipe não encheu os olhos, mas cumpriu sua missão. Mauro Silva esteve entre os melhores do campeonato e por pouco não decidiu a final, em chute no qual a trave acabaria salvando Gianluca Pagliuca. Após a disputa por pênaltis, ergueu a taça.

Diante da renovação iniciada por Zagallo, o nome de Mauro Silva se tornou um pouco mais raro nas convocações, também por um problema de lesão que teve em 1994/95 – quando, do lado de fora, viu o Depor faturar a Copa do Rei. Mas sua recuperação não demoraria a acontecer. Voltaria a dominar a meia-cancha do Deportivo, sempre como um dos jogadores mais regulares do Campeonato Espanhol. E retornaria ao cenário internacional durante a Copa América de 1997, campeão com a Seleção. Contudo, o pedido de dispensa antes de um amistoso contra Gales, em novembro, queimou o camisa 5 com Zagallo. Ele até voltaria para disputar a Copa Ouro em 1998. Entretanto, o episódio anterior, na visão do próprio jogador, pesou para a sua ausência no Mundial da França. De longe, viu César Sampaio voar como o novo parceiro de Dunga, apesar do vice.

Fora da Seleção, Mauro Silva tratava o Deportivo de La Coruña como seu esquadrão. E, de fato, os galegos conseguiram dar o passo além que faltava. Em 1999/00, os branquiazuis viveram a sua façanha. Conquistaram o Campeonato Espanhol fazendo grandes elencos de Barcelona, Valencia e Real Madrid comerem poeira. O volante era um dos destaques daquele time, que contava com um quarteto brasileiro no meio-campo, também com Djalminha, Donato e Flávio Conceição. Além deles, outros nomes célebres estavam no Riazor, do calibre de Jacques Songo’o, Noureddine Naybet, Fran e Roy Makaay.

Com o Depor de volta às cabeças de La Liga, Mauro Silva ressurgiu à Seleção. Não era cogitado por Vanderlei Luxemburgo, mas foi visto por Felipão como um dos líderes da recuperação que o treinador projetava. O gaúcho contava com a experiência do camisa 5. Porém, no meio do caminho, houve a conturbada Copa América de 2001, disputada na Colômbia. Diante do clima de medo que se instaurou em meio aos conflitos ocorridos no país, o volante pediu dispensa. Até chegou a participar de um jogo nas Eliminatórias depois disso, derrotado pela Argentina no Monumental, mas ficou de fora dos planos, suplantado por Emerson e Gilberto Silva. Seu único Mundial seria mesmo aquele da consagração, o de 1994.

Idolatrado no Riazor, Mauro Silva permaneceu escrevendo uma história grandiosa no Deportivo. Conquistou o simbólico título da Copa do Rei em 2002, com a vitória sobre o Real Madrid no Santiago Bernabéu bem nos festejos do centenário merengue – em grande atuação do veterano, que desarmou, conduziu, lutou e até arrumou confusão com os adversários. E ele seguiria na ativa até 2004/05, mantendo os galegos como um time de ponta na Espanha, além de respeitado na Europa. Aos 37 anos, contudo, era hora de pendurar as chuteiras. Mesmo que o rendimento em campo ainda fosse notável, o veterano preferiu sair por cima. Encerrou sua trajetória com 369 partidas por La Liga, segunda maior marca pelo clube, abaixo apenas do eterno capitão Fran.

Já o maior reconhecimento aconteceu em 2016, quando o Deportivo de La Coruña comemorava 110 anos de sua fundação. O clube realizou uma votação para apontar o maior jogador da história dos branquiazuis. Não deu para a liderança de Fran, a magia de Djalminha ou os gols de Makaay. Pesou muito mais a entrega de Mauro Silva ao longo de 13 anos, desfrutando de todo o período áureo dos galegos, e ele foi eleito pelos torcedores. Em abril do ano passado, o veterano teve a chance de retornar ao Riazor. Foi ovacionado, como uma lenda merece. ‘Mauro, obrigado por nos fazer eternos’, dizia uma faixa, que representava o pensamento de tantos presentes.

“Foi uma acolhida impressionante, não esperava tanto. Queria agradecer a torcida, o clube e também o presidente por esses momentos que vivi aqui. Estou encantado. Eu me sinto mais um coruñés”, declarou Mauro Silva. “Sempre que venho à Coruña acontece algo especial, temos uma relação que vai muito além do futebol, transcende à parte humana. Esta é a minha casa, passei 13 dos meus 20 anos de carreira aqui. Não costumo chorar, mas há momentos que são muito emocionantes”.

Mauro Silva costuma ser usado como um símbolo do pragmatismo da seleção de 1994. E não há problema nenhum nisso, já que representa as características que tinha o camisa 5. Isso, no entanto, não deve servir de menosprezo. Afinal, não há como diminuir uma carreira feita de tantos sucessos. Ser considerado um dos melhores brasileiros que passaram pelo Campeonato Espanhol é algo para raríssimos, e o meio-campista aparece entre os primeiros da lista. Um posto conquistado através da aplicação, do trabalho e da eficiência. Em um futebol que não tem como ser feito apenas de estrelas, Mauro Silva foi um dos mais capazes coadjuvantes.

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