Trivela

Brasil

A grande bomba no noticiário da copa do Mundo na véspera do jogo de abertura foi a demissão de Julen Lopetegui, técnico da Espanha, por ter acertado com o Real Madrid. Quebra de confiança na relação com a federação espanhola foi o motivo alegado para o rompimento, ainda que muitos também recorram a eventuais conflitos de interesse e perda de foco para explicar a decisão dos cartolas. A questão é que a situação está longe de ser nova. E o resultado final dos casos anteriores mostram que tamanha preocupação pode ser exagerada.

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Entre as grandes seleções, o exemplo mais recente é de Louis van Gaal, que já estava fechado com o Manchester United quando comandou a Holanda em 2014. O desempenho foi bom, com direito a goleada por 5 a 1 na Espanha e um terceiro lugar invicto. Outro caso de técnico que foi à Copa já com contrato com clube para a temporada seguinte foi Sebastião Lazaroni, que foi ao Mundial de 1990 já sabendo que ficaria lá na Itália, acertado que estava com a Fiorentina. A própria Espanha já havia passado por isso antes da Eurocopa de 2008, com especulação que Luís Aragonés conversava com o Fenerbahçe – e tudo indica que ele estava acertado. A Fúria ficou com o título, o primeiro de uma série que colocou os espanhois entre os grandes do planeta.

Mas o exemplo mais semelhante ao de Lopetegui é de 1994. Um técnico de uma seleção favorita ao título que estava, dias antes da estreia, acertando seu futuro. E o resultado foi positivo: quando Carlos Alberto Parreira levou o Brasil ao tetra, seu empresário negociava um contrato com o Valencia. “No final de semana acertei um pré-contrato com o procurador do técnico, o que significa, para mim, meio caminho andado. (…) Acertamos também um acordo com o preparador [físico], que foi indicado pelo Parreira.”

Essa foi a declaração de Francisco Roig à Folha de São Paulo para confirmar a contratação de Parreira. O dirigente havia acabado de assumir o clube espanhol e queria mostrar serviço. Era 2 de junho de 1994 e Parreira estava na cidade californiana de Los Gatos, onde comandava a seleção brasileira a duas semanas da estreia na Copa do Mundo, contra a Rússia.

Na época, Parreira afirmou que seu foco estava apenas na Seleção e qualquer conversa estaria nas mãos de Manuel Barbosa, mas é evidente pelos detalhes da entrevista de Roig que o técnico teve a palavra, tanto que indicou um colega de comissão técnica. O treinador também reforçou que não assinaria contrato algum antes do final da Copa.

O Brasil conquistou o título após 24 anos e a imprensa ainda debatia se Parreira deveria permanecer no cargo quando ele convocou uma coletiva para falar de seu futuro. A entrevista foi em 22 de julho, menos de uma semana depois da decisão contra a Itália. Parreira, de uma tacada, confirmou que deixava a Seleção e que estava acertado com o Valencia.

A passagem do brasileiro pela Espanha não foi boa. O clube havia investido pesado, contratando Mazinho (indicação de Parreira), Oleg Salenko (artilheiro da Copa) e Andoni Zubizarreta (goleiro da seleção espanhola). O elenco já tinha o iugoslavo (hoje montenegrino) Pedrag Mijatovic.

Mesmo com esse time, o Valencia não saiu do meio da tabela na liga espanhola. Na Copa do Rei os resultados eram melhores, passando por Real Madrid e chegando às semifinais, onde encontrou o Albacete. No jogo de ida, o Valencia não passou do 1 a 1 em casa e Roig decidiu demitir Parreira. Faltavam ainda três rodadas para o final do Campeonato Espanhol. Com o auxiliar José Manuel Rielo no comando, os valencianistas bateram o Albacete e foram à decisão da copa, mas perderam do Deportivo de La Coruña. Em La Liga, não passaram do décimo lugar, com 13 vitórias, 12 empates e 13 derrotas.

Ainda assim, houve um legado de longo prazo para o futebol espanhol. Mazinho ficou no Valencia para mais uma temporada. Depois, defendeu Celta, Elche e Alavés. Nesse tempo, seu filho Thiago, nascido na Itália e brasileiro de família, ter direito a cidadania espanhola e, rejeitado pela CBF na adolescência, decidir defender a seleção espanhola.

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