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Seleção feminina holandesa: agora é que são elas

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14 de julho de 2017 às 10:27

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Como em vários outros países, o futebol feminino tenta estabelecer certa regularidade na Holanda. Felizmente, no caso holandês, os passos são constantes. No futebol de clubes e no de seleções. No primeiro, desde 2007 o Campeonato Holandês feminino é disputado ininterruptamente – e após um período de “BeNeLiga” feminina, com a fusão das ligas belga e holandesa de mulheres entre 2013 e 2015, a Eredivisie Vrouwen (ao pé da letra, “Eredivisie Mulheres”) voltou a ser jogada isoladamente.

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Mas o assunto principal desta coluna é a seleção holandesa. Já mereceu destaque a honrosa estreia das Leeuwinnen (“Leoas”) numa Copa do Mundo, em 2015, conseguindo avançar já às oitavas de final – e caindo para o Japão, futuro vice-campeão. No entanto, a tentativa regular de fazer a Laranja dar o salto necessário para ganhar respeito terá seu capítulo mais importante agora. Mais precisamente, a partir do domingo, quando começa a Eurocopa feminina, sediada justamente no país – com jogos nos estádios do Willem II (Tilburg), NAC Breda (Breda), De Graafschap (Doetinchem), Sparta Rotterdam (Roterdã), Utrecht (autoexplicativo), Go Ahead Eagles (Deventer) e Twente (Enschede, onde será a final, em 6 de agosto).

E a partir da estreia holandesa – contra a Noruega, abrindo a Euro no domingo, às 13h de Brasília -, começará um segundo teste. Além da tarefa de conseguir um desempenho razoável na Euro que sedia, as jogadoras da equipe laranja terão de provar que, com uma média de idade relativamente baixa, já estão prontas para suceder a geração anterior, que pouco a pouco vai parando de jogar, mas que conseguiu os feitos que renderam um pouco mais de atenção e confiança ao futebol feminino holandês (feitos como alcançar as semifinais na primeira Euro feminina que a Holanda disputou, em 2009, na Finlândia).

De certa forma, a campanha das Leoas na Copa de 2015 já indicava essa transição de gerações. Jogaram o Mundial do Canadá algumas integrantes do grupo que deu o primeiro salto, com as semifinais na Euro 2009: a goleira Loes Geurts, a zagueira Petra Hogewoning, a volante Anouk Hoogendijk, a ponta-de-lança Kirsten van de Ven, a atacante Manon Melis. Mas também figuravam entre as convocadas da Copa novatas: a goleira Sari van Veenendaal, a zagueira Mandy van den Berg, as meio-campistas Tessel Middag e Lieke Martens, as atacantes Jill Roord e Vivianne Miedema.

Na Copa, as veteranas ainda se impuseram quando necessária: Miedema, já um grande destaque das Leoas com apenas 18 anos, decepcionou, e os gols mais importantes ficaram a cargo de Van de Ven, então com 30 anos – por exemplo, o gol no empate em 1 a 1 com as anfitriãs canadenses, que garantiu a classificação às oitavas, e o gol de honra na derrota para o Japão. De 2015 até agora, porém, muita coisa mudou. A começar pela saída gradual das mais experientes.

Já naquele ano da Copa, a primeira veterana parou de jogar – a lateral direita Dyanne Bito, que até foi ao torneio, aos 33 anos, mas sequer jogou, lesionada que estava. Em 2016, foi a vez de Petra Hogewoning deixar a carreira, aos 30 anos, após jogar a temporada da Eredivisie Vrouwen pelo Ajax. Do mesmo modo, aos 31 anos, a supracitada Van de Ven teve o melhor fim de carreira que uma jogadora pode supor: conquistar o título holandês de 2015/16 pelo Twente foi o ato final de sua trajetória. Atuando nos Estados Unidos, Manon Melis – a maior goleadora da história da seleção feminina, com 55 gols entre 2005 e 2016 – também encerrou a carreira, aos 30 anos.

E isso também aconteceu em 2016/17: o Ajax conquistou o campeonato feminino pela primeira vez em sua história (por incrível que pareça), e este foi o título final para duas das mais importantes jogadoras holandesas de todos os tempos. Embora não tenha podido estar na Copa em 2015, a zagueira Daphne Koster, 35 anos, esbanjou liderança durante sua carreira, sendo capitã das Leoas por dez anos – e atuando durante vinte, entre 1997 e 2007. E Koster foi a mais homenageada pelo título do Ajax. Assim como a volante Anouk Hoogendijk, 32 anos: mesmo vitimada por lesões nos dois últimos anos de sua carreira, Hoogendijk seguiu muito querida na Holanda. Não só por ser uma volante segura: para uma menina que foi a um programa de televisão, aos 12 anos, em 1997, tendo como desejo jogar no Utrecht, Anouk foi até mais longe. Foi a primeira jogadora holandesa a ser mais conhecida em outros países (jogou na Inglaterra, pelo Bristol Academy e pelo Arsenal Ladies), e também pelo carisma que a tornou um símbolo inspirador do futebol feminino no país – a ponto de ter lançado um livro (“Balverliefd” – em holandês, “Apaixonada pela bola”), dedicado a meninas que quisessem seguir a carreira.

Todavia, mesmo merecedora de respeito, a geração semifinalista da Euro em 2009 virou passado. E a hora é das mais novatas, que têm algo a provar. Ainda mais depois das turbulentas mudanças de comando na seleção feminina holandesa. Após a Copa, em 2015, Roger Reijners deixou a seleção. Sua auxiliar, a ex-jogadora Sarina Wiegman, assumiu interinamente, até a chegada de Arjan van der Laan, em outubro daquele ano. Desde então, os resultados nem foram tão desonrosos – certo, doeu um pouco perder a vaga no torneio olímpico, na Holanda, por um gol, para a Suécia, futura medalha de prata, mas era superável. Porém, a queda de desempenho no fim de 2016 (três derrotas, para Alemanha, Bélgica e Inglaterra) foi demais para Van der Laan, demitido. Caminho aberto para Sarina Wiegman voltar, desta vez em caráter efetivo, tendo como auxiliar um marcante personagem do futebol masculino: Foppe de Haan, técnico que levou a equipe sub-21 holandesa ao bicampeonato europeu, em 2006 e 2007.

Sob Wiegman, enfim, as jogadoras ganharam um pouco mais de confiança. Nos amistosos disputados em 2017, só houveram derrotas para Austrália, França e Japão. De resto, sete vitórias em dez jogos. E um entrosamento promissor entre várias jogadoras. Principalmente no ataque: Lieke Martens tem progredido na criação das jogadas, no meio-campo. Pelo lado direito, Shanice van de Sanden (novata na Euro 2009 – tinha 16 anos -, voltou a ser convocada em 2016) mostra velocidade nos avanços e cruzamentos.

Mas quem tem mais a provar é Miedema: com 20 anos, a fazer 21 neste sábado, “De Koele” (“A fria”, referência a seu tímido temperamento) seguiu jogando bem no time feminino do Bayern de Munique. Como prêmio, ganhou a transferência para o Arsenal Ladies. E sabe que a Euro é a oportunidade perfeita para apagar as más memórias da atuação apática na Copa de 2015. “Eu sei que não sou mais a Vivianne que era então, aquele tempo acabou”, definiu à revista “Voetbal International”. E não foi só Miedema que ganhou chance em locais mais avançados para o futebol feminino na Europa: Jill Roord (reserva, mas artilheira da Eredivisie em 2015/16) vai para o Bayern, enquanto Martens acertou contrato com o Barcelona.

Claro, a Holanda não é favorita ao título feminino europeu. Para ficar em apenas três rivais, há a poderosa Alemanha (bicampeã europeia, medalha de ouro no torneio olímpico do ano passado), a Inglaterra (terceira colocada na Copa do Mundo passada, com uma Premier League feminina cada vez mais forte) e a França (também com uma liga forte, preparando uma equipe entrosada para ir bem na Copa do Mundo que sediará daqui a dois anos). Sem contar a Noruega, adversária da estreia, que tem tradição: campeã mundial em 1995 e duas vezes campeã europeia.

Sarina Wiegman sabe disso, como comentou à revista supracitada: “Estatisticamente falando, é muito pequena a chance de sermos campeãs”. Mas permitiu-se algum otimismo: “Mas vamos tentar”. Boa vontade de imprensa e torcida não tem faltado: os ingressos estão esgotados para os jogos da Holanda na Euro feminina, houve a mudança no escudo da seleção feminina feita pela KNVB (ao invés do leão do uniforme masculino, uma leoa), e o quarteto Jackie Groenen-Miedema-Martens-Van de Sanden estampa a capa da edição desta semana na “Voetbal International”.

A seleção feminina holandesa preparou-se. E sabe: agora é que são elas. Uma boa campanha na Euro garantirá a continuação do sólido trajeto rumo à estabilidade.

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