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O comportamento das torcidas é um assunto que, vira e mexe, se torna o centro do debate. No Brasil, passou a ser mais recorrente nos últimos anos, especialmente com a “arenização”, em que os principais clubes começaram a usufruir dos estádios reformados e parte das consequências incutiram sobre as arquibancadas. Não dá para ser tão categórico e dizer que a festa diminuiu completamente. Mas alguns efeitos se escancaram, com o preço dos ingressos cada vez mais exorbitante. Para muitos dirigentes, o consumidor se sobrepõe ao torcedor. Assim, eles não podem se queixar tanto de quem prefere consumir a vitória como um souvenir, ao invés de entender que o velho torcedor sempre esteve ali para servir, e não ser servido.

E se a Premier League costuma ser apontada como um norte para o futebol brasileiro, saiba que nem lá as pessoas andam muito felizes com o comportamento das arquibancadas. Um dos jornais mais influentes do Reino Unido, o Guardian publicou nesta quarta um texto intitulado: “A Premier League precisa lutar contra a maré de torcidas cada vez mais silenciosas”. E o autor, Paul MacInnes, trata de maneira nada amigável o cenário.

“A Premier League retorna e, com ela, a questão sobre qual adjetivo descreve a competição mais precisamente. É a ‘melhor’ liga no mundo, a ‘mais competitiva’ ou simplesmente a ‘mais rica’? Uma descrição frequentemente aplicada, talvez por não ser tão específica, é a de ‘mais empolgante liga no mundo’. Entre em campo em um dia de jogo, entretanto, e você pode ser perdoado por duvidar se este era o caso”, escreve. “As montagens da televisão permanecem cheias de multidões enlouquecidas e os profissionais estrangeiros continuam a falar sobre a atmosfera, mas os torcedores sabem que isso não combina com a realidade. A maior parte dos jogos, na maior parte dos estádios, não é arrebatada pela cacofonia de torcidas apaixonadas. Eles são majoritariamente quietos, lugares frustrados, animados apenas com os gols ou a perseverante perseguição aos árbitros. Torcidas visitantes regularmente abafam o som das mandantes, mas até elas estão se cansando. ‘Isso é uma biblioteca?’ é o canto mais comum nos estádios que visitei nesta temporada”.

MacInnes não prefere generalizar o problema, mas aponta que os próprios torcedores têm as suas responsabilidades. O declínio na participação das arquibancadas é uma preocupação, e as músicas se tornam repetitivas. Acabam se concentrando apenas em fazer graça, quando a representatividade da massa de torcedores costuma ser bem maior. “As torcidas são uma história oral do clube, elas são a expressão da tradição. Talvez mais importante, elas são a contribuição para o sucesso do clube. Uma atmosfera barulhenta ajuda o time dentro de campo”, ressalta.

A explicação para estes efeitos, na visão de MacInnes, se concentra sobre o preço dos ingressos. A entrada para um jogo de futebol na Premier League (e não só lá) tem seu custo mais próximo ao de uma peça de teatro do que o de um filme no cinema. “Quando as pessoas pagam mais dinheiro, elas querem ser entretidas”, diz. E, desta maneira, o sentimento de consumidores que estão lá para serem servidos se propaga. Eles pagaram, não precisam torcer o tempo todo. Mas se acham no direito de vaiar quando o ‘produto’ não atende as suas expectativas. Da mesma forma como não se importam em esvaziar os setores antes do fim do jogo ou após o término do intervalo. A percepção do objetivo daquela multidão vem mudando.

Por fim, MacInnes questiona até mesmo o modelo de carnês de temporada. Segundo a visão do colunista, eles são ótimos para fidelizar o torcedor-consumidor, mantendo as médias de público cada vez mais altas, mas péssimos para atrair novas pessoas às arquibancadas – a variar um pouco mais os espectadores e tornar aquele programa de final de semana mais empolgante, não uma mera obrigação. “Dinheiro não é tudo. A forma dos estádios modernos permite que o ruído se desloque para o ar, ao invés de estremecer as arquibancadas. Há uma ausência das arquibancadas reais; a distração do telefone; inibição humana natural, que não é diluída pelo fácil acesso ao álcool; a escassez de cânticos decentes. E isso sem contar a ideia que a última coisa na Terra que você quer fazer é cantar para os flocos de neve milionários em campo. Há um monte de razões pelas quais as coisas ficaram quietas”, ressalta.

Logicamente, solucionar esta equação não é fácil. Há diversos fatores em conta. Para a Premier League, o jogo só deve virar quando o ambiente silencioso nos estádios reverter menos dinheiro – e, sem dúvidas, uma atmosfera adormecida atrapalha a embalagem do produto. Entretanto, cabe aos próprios clubes e torcedores mudarem o cenário antes que o ponto se torne tão crítico assim. Na Inglaterra, há o exemplo de iniciativas isoladas. No Brasil, também. E quando os problemas do modelo se parecem tanto com os problemas que já despontam por aqui, fica mais do que claro que é hora de debater de maneira mais séria, antes que as arquibancadas se transformem de vez em grandes shoppings centers.

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