Trivela

América do Sul

Em 2005, o Independiente anunciou a reforma de seu tradicionalíssimo estádio. La Doble Visera seria demolida e reconstruída, dando lugar a uma das praças esportivas mais modernas da Argentina – e nem por isso, perdendo a sua arquitetura de caldeirão. Naquele primeiro momento, a diretoria queria saber como chamar a nova casa e realizou uma votação. A torcida alvirrubra ignorou o apelido de ‘Rey de Copas’, a manutenção do ‘La Doble Visera’ e até mesmo a exaltação de seu maior ídolo, ‘Ricardo Enrique Bochini’, o craque que orquestrou o Rojo às suas maiores glórias. Preponderou a opinião de 30% dos eleitores, que indicaram o nome do torneio que tão bem caracteriza o clube: ‘Estádio Libertadores de América’.

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Há uma relação especial do Independiente com as competições continentais. Afinal, nenhum outro clube na América do Sul pode se gabar de ter conquistado a Libertadores sete vezes. De tê-la conquistado nas sete vezes em que chegou à final. Ou mesmo de acumular outros títulos secundários na Conmebol – Supercopa, Recopa, Copa Sul-Americana. Desde a década de 1960, quando o gigante sul-americano se erigiu, o Rojo levantou mais taças fora da Argentina do que dentro. Por isso mesmo, sua torcida viveu com toda a ânsia a decisão desta quarta, contra o Flamengo. Vivia a sua terra prometida. Vivia o destino manifesto. Buscava aumentar a coleção de prodígios que só ela pode proclamar. E que, por tabela, ainda tem a chance de render o retorno à fase de grupos da Libertadores.

Não é exagero dizer que a torcida do Independiente jogou junto a final da Copa Sul-Americana. O peso do jogo decisivo começou a se viver nas arquibancadas. E, no recebimento aos times, o estádio fez jus ao seu nome, com uma festa digníssima de Libertadores de América. Era mais do que o papel picado, as serpentinas, a fumaça ou os fogos de artifício. Era como se a Terra houvesse engolido aquele campo rumo ao seu centro, rumo ao epicentro de um continente que pulsava. E fervia no vermelho vivo das milhares de camisas ao redor do campo, prontas para incendiar o horizonte de quem estivesse em campo. O caldeirão começava a borbulhar. Levavam os rubro-negros ao seu inferno tomado por diablos rojos, de criaturas fantásticas e ferozes ao redor dos alambrados.

Nem sempre a torcida do Independiente foi tão vibrante. Existiram os momentos de provação, principalmente depois que Réver abriu o placar para o Flamengo. Porém, quando o empate saiu com Gigliotti, as arquibancadas se agigantaram em algumas centenas de metros. Curvaram-se em direção ao campo, como se não deixassem ar para os jogadores do Flamengo respirar. O Rojo cresceu junto com sua torcida, que fazia as arquibancadas tremerem completamente, algo perceptível pelas câmeras de transmissão. O devaneio de fazer América se tornava real, diante dos olhos da multidão.

Embalado pelos torcedores, o Independiente buscou a virada. E manteve suas forças no momento de pressão graças ao ardor das massas, em um ato de profissão de fé. De crença que o time não iria esmorecer ao Flamengo. Cada vez que os rubro-negros tentavam abrir espaços na defesa adversária, o barulho ensurdecedor dos assovios era capaz de provocar desorientação aos mais fracos, uma vertigem que tornava as tentativas dos cariocas inúteis. Nos minutos finais, ainda foi preciso prender a respiração, para que nenhum suspiro mais forte da multidão desviasse a bola das mãos seguras de Campaña. Ao final, não era um grito de comemoração, mas um rugido pela imposição da fera tão acostumada no passado a caçar e a devorar grandes times pelas Américas.

A torcida do Independiente fez a sua parte. E certamente os jogadores partirão ao Rio de Janeiro com outra energia. Com o desejo de voltar a Avellaneda carregando a taça nas mãos, para ver o Libertadores de América desabar na comemoração. Ao Flamengo, resta usar o Maracanã também ao seu favor. Esta final se ganha não apenas no campo, mas também na voz. E o que os alvirrubros fizeram nesta quarta foi para ressoar do Ushuaia ao Alasca.

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