Trivela

Ásia/Oceania

Há décadas, o futebol se tornou palco para a luta das mulheres em países muçulmanos. O ato de assistir a um jogo nas arquibancadas pode parecer corriqueiro em diversas partes do mundo, mas é proibido a mulheres em algumas nações islâmicas, e acabou virando um símbolo na busca por suas liberdades. O exemplo mais forte é o do Irã, onde a classificação à Copa do Mundo de 1998 encadeou uma pequena revolução feminina, em assunto que segue em pauta mesmo 20 anos depois. Já na Arábia Saudita, a grande vitória aconteceu nesta sexta. A partir de agora, as mulheres ganham o direito de frequentar os estádios locais.

Anteriormente, a mera presença das mulheres nas arquibancadas era considerada uma contravenção pelas autoridades sauditas, passível a prisão. Nada surpreendente para um país que, segundo o Fórum Econômico Mundial, ocupa o 141° lugar entre 144 nações num ranking sobre igualdade de gênero elaborado em 2016. No entanto, desde o último ano, o governo saudita vinha sinalizando uma abertura na questão. E, neste primeiro momento, permitiu que três estádios da primeira divisão do Campeonato Saudita criassem setores exclusivos para que as mulheres frequentem com suas famílias, ao lado de maridos e filhos.

Nesta sexta-feira, o Al-Ahli abriu os portões do Estádio Rei Abdullah, em Jeddah – onde, emblematicamente, há dois anos uma mulher foi presa por tentar furar a proibição, vestindo roupas masculinas para se camuflar nas arquibancadas. E as visitantes ilustres certamente aprovaram o que viram, com a goleada dos anfitriões por 5 a 0 sobre o Al-Batin. Cerca de 7,5 mil lugares foram destinados às sessões familiares, embora menos da metade estivesse ocupada. Ainda assim, mesmo que limitada, a presença de centenas de mulheres torcendo e vibrando por seus times não deixa de representar uma revolução.

Para receber as mulheres, os três estádios autorizados precisaram passar por reformas e adaptações. Além da criação do setor especial, outras adições estruturais tiveram que ser feitas. Banheiros femininos foram construídos, assim como lanchonetes reservadas e até mesmo bolsões nos estacionamentos. Stewards mulheres também foram contratadas para trabalhar durante as partidas. A expectativa é de que até a próxima temporada todos os estádios da primeira divisão estejam aptos à nova realidade.

“É um dia histórico no reino, que culmina em mudanças fundamentais. Estou orgulhosa e extremamente feliz por este desenvolvimento. A Arábia Saudita se move para adotar medidas civis que são comuns em muitos países”, disse Ruwayda Ali Qassem, uma moradora de Jeddah, em entrevista à AFP. Visão complementada por Lamya Khaled Nasser: “Esse evento prova que nós estamos seguindo a um futuro próspero. Estou muito orgulhosa em testemunhar uma enorme mudança”

A abertura ocorrida na Arábia Saudita é consequência da elevação de Mohammed bin Salman ao posto de príncipe-herdeiro, ocorrida em junho. A realeza saudita tem promovido diversas mudanças e ações progressistas no país, algumas delas em prol das mulheres, colocando-as em posições proeminentes do estado e determinando que o veto a dirigirem será encerrado no próximo mês de junho. Em setembro de 2017, Bin Salman permitiu que as torcedoras fossem ao Estádio Rei Fahd participar das celebrações de um evento nacional. Depois disso, o fim da restrição nos estádios se tornou uma consequência lógica dentro do processo. Assim, em outubro, a criação dos setores familiares começou a ser alinhada.

Nas redes sociais, foram criados movimentos estimulando a ida das mulheres aos estádios nesta primeira jornada, embora também tenham surgido os críticos da decisão, com seus argumentos conservadores. “Eu não acho que deixar as mulheres entrarem nos estádios é errado ou proibido. Pelo contrário, isso não vai contra a religião ou as tradições. Muitas garotas seguem seus clubes e nos reunimos no horário dos jogos. Isso é um direito legal para nós, especialmente se existirem setores para as famílias”, argumenta Manayer al-Qahtani, ao New York Times.

Enquanto a proibição vigorava, era comum as mulheres se reunirem em locais públicos para acompanhar os jogos. “Há muitas torcedoras na Arábia Saudita. Muitas das minhas amigas e suas famílias são entusiastas do futebol. Eu estive em muitos cafés em Jeddah durante as partidas e testemunhei muitas damas ao meu redor assistindo animadamente, gritando alto com seus maridos e filhos. Eu vi minha tia e meu tio torcerem a rivais e se provocarem conforme os resultados”, relata a jornalista Aseel Bashraheel, ao Guardian. “A sociedade está mudando na Arábia Saudita e sempre há espaço para mais mudanças”.

E as expectativas são de que as mulheres gradativamente frequentem mais os estádios, à medida que o hábito for se tornando natural. “Teremos muitas mulheres indo aos jogos, porque elas esperam por isso há anos. Enfrentamos algumas críticas, mas qualquer decisão terá os seus críticos. A maioria das pessoas apoia a nossa decisão”, apontou Khalin Ghadin, representante do Campeonato Saudita.

Um bom teste para a novidade acontecerá já neste sábado. Maior clube do país, o Al-Hilal disputará o grande clássico contra o Al-Ittihad no Estádio King Fahd. O setor familiar estará aberto para receber as mulheres. “Eu não sei como descrever meus sentimentos. Esperei por isso desde que me tornei torcedora, em 2010, e será um prazer ir a um jogo do meu clube. Estou muito empolgada. As mulheres sauditas estão envolvidas com a cultura do futebol há tempos, isso nunca foi exclusivo dos homens. Nós esperávamos por isso e esse é um sentimento novo a todas. Será um evento maravilhoso”, declara Ghadah Grrah, ao Guardian. E pelos espetáculos geralmente oferecidos pelos torcedores do Al-Hilal, não há como pensar diferente – agora com novas vozes se somando ao show.

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